Sustentabilidade, temos uma casa em comum… vamos cuidar da Terra?

Introdução

“O futuro está em nossas mãos. Juntos, devemos garantir que nossos netos não tenham que nos perguntar por que não fizemos o certo, e os deixamos sofrer as consequências. ”

Ban Ki-moon, Secretário Geral das Nações Unidas, 2007

A frase citada por Ban Ki-moon deve induzir o ser humano a uma profunda reflexão de suas reais responsabilidades sobre o futuro que é construído no momento atual. Todo educador com o seu trabalho vislumbra construir um indivíduo íntegro, alguém que tenha integridade, palavra de origem latina integritate, que significa qualidade de alguém ou algo a ser integre, de conduta reta, pessoa de honra, ética, educada. Porém, como se constrói um indivíduo com integridade? A resposta desta questão está em outra indagação: Como a criança aprende? Segundo Bilbao (2015)[1] o cérebro das crianças dispõe de um circuito de neurônios, conhecido como neurônios espelhos[2], no qual o principal objetivo é aprender por meio da observação, ou seja, uma parte considerável das habilidades intelectuais e emocionais das crianças, é desenvolvida, em função da observação e da imitação. Nesse sentido, para Bilbao (2015), toda mãe, todo pai e todo educador tem a responsabilidade de educar por meio do exemplo. Com isso ganham a oportunidade de reconstruírem-se, e de serem pessoas melhores. Entretanto, ser melhor não significa ser perfeito, pois ninguém o é. Ser uma pessoa melhor é ter a consciência de que: se como pais/educadores, por exemplo, é importante que o seu filho/aluno seja sincero, então, sejam primeiramente sincero com as demais pessoas, lembrando-se que seu filho/aluno vai absorver os ensinamentos do seu exemplo como uma autêntica esponja. Para uma criança o adulto com o qual convive será sempre o seu modelo, a sua referência. Por isso, é fundamental que esse adulto no momento presente assuma suas responsabilidades e compromissos com o futuro, procurando reinventar-se e ser com as suas atitudes a melhor versão de si. O estudo de Bilbao (2015), sobre as crianças aprenderem por imitação e observação, nos faz refletir sobre o que expressa Ban Ki-moon ao dizer que “o futuro está em nossas mãos”, isso é mesmo que dizer que as gerações futuras dependem das ações da geração atual. Enfim, a construção do homem íntegro do amanhã está diretamente ligada com a reconstrução do homem (adulto) íntegro de hoje.

Desenvolvimento sustentável e sustentabilidade

Vygotsky (apud REGO, 1997), por sua vez, explicava que a relação indivíduo/sociedade, resulta de uma interação dialética entre este e seu meio sociocultural, e afirmava que, ao mesmo tempo em que o ser humano, para atender as suas necessidades transforma o seu meio, transforma a si mesmo. Segundo esse autor, a cultura é parte constitutiva da natureza.

Sendo a criança a construtora do futuro, consideramos o que diz Montessori (2017) ao se referir a criança como o maior observador espontâneo da natureza, que sente a necessidade de ter, à sua disposição, um meio/ambiente com o qual possa agir e interagir.  Com esse pensamento tomemos como reflexão o que aponta a UNESCO (2012):

O desenvolvimento sustentável é o paradigma geral das Nações Unidas. O conceito do desenvolvimento sustentável foi descrito pelo Informativo da Comissão Bruntland de 1987 como “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades atuais sem comprometer a capacidade das futuras gerações de satisfazerem as suas próprias necessidades. ”

Satisfazer as necessidades atuais sem comprometer as necessidades das gerações futuras, é garantir que as crianças poderão desfrutar do meio/ ambiente, no qual segundo Hermman (2017) o vínculo com a natureza se faz importante para o seu desenvolvimento, pois é assim que ela vai tomar consciência do seu lugar no mundo em um contexto mais amplo.

Para a UNESCO (2012) a sustentabilidade, pode ser considerada um objetivo a longo prazo, é um paradigma para pensar em um futuro no qual três âmbitos (ambiental, social e econômico) se equilibram na busca do desenvolvimento de uma qualidade de vida. Já o desenvolvimento sustentável se refere aos muitos processos e caminhos que existem para atingir o objetivo (da sustentabilidade).

Segundo Almeida (2002) a natureza não é tão efêmera que se desagregue a qualquer impacto, e nem tão resistente que possa absorver impactos indefinidamente. Assim sendo, para Almeida (2002) a noção de sustentabilidade pode ser melhor compreendida quando é atribuída a um sentido amplo da palavra “sobrevivência”, pois o desafio da sobrevivência (a luta pela vida) sempre dominou o ser humano. Atualmente, a percepção de que tudo afeta a todos, com maior intensidade e menor tempo para absorção, gerou o processo de redefinição, conceitual e pragmático do desenvolvimento clássico consumidor de recursos naturais, e levou à formulação do conceito de desenvolvimento sustentável.

Almeida (2002) diz que o processo de mudança do antigo (o universo visto como um conjunto de partes isoladas, funcionando como um mecanismo de relógio, exato e previsível) para o novo – o da sustentabilidade – está em andamento e envolve literalmente todas as áreas do pensamento e da ação do homem, pois o velho paradigma não dá mais conta de entender e lidar com as complexidades e sutilezas dessas transformações. Já o novo, cujo eixo é a ideia de integração e interação, propõe uma nova maneira de olhar e transformar o mundo, baseada no diálogo entre saberes e conhecimentos diversos: do cientifico, com toda a sua rica variedade de disciplinas, ao religioso – passando pelo saber cotidiano do homem comum.

De acordo com Almeida (2002) a adesão à busca da sustentabilidade pressupõe, portanto, uma noção clara da complexidade e das sutilezas do fator tempo, e exige uma postura não imediatista, mas, uma visão de planejamento e de operação capaz de contemplar o curto, o médio e o longo prazo, é necessário ter uma atitude eco eficiente, que para Almeida (2002) se sintetiza em sete elementos:

  • redução do consumo de materiais com bens e serviços;
  • redução do consumo de energia com bens e serviços;
  • redução da emissão de substâncias tóxicas;
  • intensificação da reciclagem de materiais;
  • maximização do uso sustentável de recursos renováveis;
  • prolongamento da durabilidade dos produtos;
  • agregação de valor aos bens e serviços.

Como diz Almeida (2002) a sustentabilidade exige uma postura preventiva, que identifique tudo que um empreendimento pode causar de positivo – para ser maximizado – e de negativo – para ser minimizado, porém, para ser realmente vivenciada a sustentabilidade requer uma nova ordem mundial, associada a uma profunda mudança de atitude no interior de cada nação, de cada instituição, de cada indivíduo.

Considerações finais

A sustentabilidade é uma realidade que precisa ser vivenciada. Se considerarmos o que diz a neurociência sobre a criança aprender por imitação e observação, chegaremos à conclusão que o futuro e vivência real da sustentabilidade só serão possíveis quando o homem (adulto) passar pelo que Montessori (1942) nomeia de reforma do adulto. Para ela a reforma do adulto tem uma importância enorme para toda a sociedade, pois representa o despertar da consciência para o respeito a criança, que está em processo de formação, de construção.

O fato é temos uma casa em comum que é a Terra e compartilhamos dos seus recursos naturais, e para educarmos as crianças para uma vida sustentável, o ser humano precisa aprender  o que diz Almeida (2002) quando alerta que o uso excessivo do recurso natural rompe o equilíbrio do sistema ambiental e social e isso quebra o sistema econômico, e pensar que já é hora de ter atitudes sustentáveis assim como a própria natureza, que é um modelo de sustentabilidade para o homem, é a velha máxima de Lavoisier de que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, no qual todos os diversos organismos que compõem um ecossistema têm algo em comum: produzem detritos, assim como os seres humanos e suas empresas. Mas nos ecossistemas o que é detrito para uma espécie é alimento para outra. Ou seja, a natureza está sempre reciclando. Para uma vida sustentável é fundamental que o homem (adulto) recicle diariamente suas atitudes para assim auxiliar as crianças na construção de um futuro próspero e sustentável.

Referência Bibliográfica

ALMEIDA, Fernando. O Bom Negócio da Sustentabilidade. Nova Fronteira, 2002.

BILBAO, Álvaro. El cerebro del niño explicado a los padres. Plataforma Actual, 2015.

UNESCO. Educación para el desarrollo Sostenible, Libro de Consulta. Organización de las Naciones Unidas para la Educación, la Ciencia y la Cultura, 2012.

MONTESSORI, Maria. A Descoberta da Criança – Pedagogia Científica. Kírion, 2017.

HERRMANN, Ève. 100 actividades Montessori. Editorial Planeta, S. A, 2017, pág. 92.

WIKIPÉDIA


[1] Dr. Álvaro Bilbao, neuropsicólogo e autor do livro “O cérebro da criança explicado aos pais”.

[2] Para Bilbao (2015), os neurônios espelhos ensaiam silenciosamente muitos comportamentos e programam o cérebro da criança, de modo que esteja preparado para repetir as situações observadas em momentos similares.[

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