Criança faz arte? Toda casa com crianças possui ou já possuiu uma exposição particular de arte moderna em suas paredes, expressada com os mais avançados recursos; com aqueles que deem para desenhar e expor seus sentimentos (canetinhas, giz de cera, lápis de cor, o batom da mamãe…), na verdade, em um momento de nossas vidas fomos grandes artistas. Talvez isso seja uma necessidade que nos acompanha, herdada de nossos mais remotos ancestrais ou talvez não. Pode ser simplesmente um ato de livre expressão. O fato é que os desenhos das crianças nas paredes de suas casas representam as suas observações sobre o ambiente, talvez expresse um desejo de dominar e entender esse ambiente que é tão rico de informações, pois para as crianças é necessário ver para crer. Sendo interessante relatar que o homem pré-histórico buscava, por meio dos seus desenhos nas paredes das cavernas dominar o ambiente hostil no qual viviam. O pintor Paleolítico pintava os seres, um animal, por exemplo, do modo como o via de uma determinada perspectiva, reproduzindo a natureza tal qual sua vista captava. Essa relação das pinturas das crianças e as pinturas rupestres nos leva a acreditar que ambas são as mais simples e naturais formas de expressão artística, a melhor forma para se entender a arte e a evolução do pensamento humano.

A criança e arte possuem uma relação muito próxima. “E um pintor de maneira especial ao se questionar –” Qual era a essência da pintura? Qual era a forma mais simples de linguagem artística?” – descobriu que a resposta estava nos desenhos das crianças. Joan Miró (Barcelona, 1893 – Palma de Mallorca, 1983) estudou na Escola de Belas Artes de Barcelona, porém, em determinado momento de sua vida começou a receber uma forte pressão por parte de seus pais para que largasse as artes e se dedicasse aos negócios da família. A pressão nessa época foi tanta que o artista decidiu abandonar os estudos e entrou em profunda tristeza, necessitando de cuidados médicos para que pudesse se recuperar. Os anos foram passando e mesmo a contragosto de seus pais, Joan Miró retornou ao mundo das artes, dedicando-se a pintura e também a arte em cerâmica. Ao longo de sua carreira o estilo do artista sofreu a influência de várias tendências como o dadaísmo, fauvismo e o cubismo. Em 1975 se inaugurou em Barcelona a Fundação Miró, cujo edifício foi desenhado por seu amigo Josep Lluís Sert. E, um dos comentários mais ouvidos diante dos quadros de Joan Miró é “parece que foi feito por uma criança” e podemos dizer que basicamente é essa a ideia. Ao observar as pinturas de Miró, é possível perceber como ele se apropria da forma e ingenuidade dos desenhos infantis. Ele não tem a intenção de representar os elementos do mundo real, tal como são, apenas linhas, cores e formas, como se estivesse vendo o mundo pela primeira vez. É uma pintura viva e repleta de emoções! Não há como julgar apenas como feia ou bonita uma obra de arte, ela é uma representação simbólica do mundo, para interpretá-la é importante um repertório intuitivo e cultural. O mesmo acontece com o desenho infantil, pois ele é a expressão da criança, do modo como se expressa o que conhece e sente do mundo. Em suas próprias palavras, Miró define com clareza sua escolha pela simplificação de personagens e cores: “Paulatinamente, comecei a não utilizar mais do que uma pequena quantidade de formas e cores…” Em outro excerto, afirma: “Meus personagens têm experimentado a mesma simplificação das cores. Assim, simplificados, parecem mais humanos e mais vivos do que se estivessem representados com todos os detalhes, faltaria essa vida imaginária que engrandece tudo”. E ainda: “Quando um espectador se reconhece em meu personagem, não sente o que o separa deles, mas tudo o que o aproxima de todos os homens, seja branco ou negro, do sul ou do norte, negro ou chinês”. Em outro relato Miró afirma que “o homem realizou o sonho de um menino”, mas dentro da ideia de Maria Montessori podemos dizer que a criança construiu um homem com uma grande sensibilidade e criatividade.

Para Montessori a criança possui um segredo em sua alma que é ocultado pelo ambiente, por isso, é necessário agir sobre esse ambiente para libertar as manifestações infantis, pois a criança encontra-se em um período de criação e expansão.

Assim sendo, na metodologia montessoriana não se ensina desenho fazendo desenhar, mas oferecendo as oportunidades para se apropriar-se do desenho com os instrumentos de expressão. A mão que é tão trabalhada com os materiais montessorianos é um meio que permite à inteligência exprimir-se, e a civilização progredir, pelo trabalho. A mão é o instrumento da expressão e criação, e no mundo da nossa imaginação, virtualmente é a mão que domina. Por isso, imergir crianças tão pequenas em trabalhos e meios artísticos é uma tentativa, por meio de estímulos de buscar cumprir o verdadeiro papel da nova educação, que consiste em efetuar a libertação do ser, para que no futuro a criança possa encontrar-se como ser humano capaz de respeitar a si, o próximo e o ambiente.

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