Casa dei Bambini – Uma vida dedicada as crianças!

A mulher que viria a transformar a formação de milhões de pessoas, nasceu em Ancona, no leste da Itália, no dia 31 de agosto, em 1870. A mãe, Renilda, era uma mulher inteligente e liberal, de uma família de acadêmicos. Incutiu na filha a convicção, de que uma mulher poderia trilhar o seu próprio caminho. O pai de Maria Montessori, Alessandro, era mais conservador que a esposa. Lutara como oficial nas batalhas pela independência da Itália, e era o ministro da recém-criada nação italiana.

Em 1875, Alessandro, mudou-se com sua família para a capital do novo Estado Italiano, onde Maria iniciaria os seus estudos. Em Roma, as escolas eram sujas e ofereciam uma fria e pouco inspiradora forma de aprender. As meninas e moças italianas deveriam aprender o trabalho doméstico, para serem boas esposas e mães. Entretanto, Maria era uma jovem determinada e confiante, com interesse pela Matemática e Ciência, e tinha em mente um futuro muito diferente. Direta e confiante insistiu em ir para a escola técnica, onde se ensinava Ciências, e que era normalmente o reduto dos rapazes italianos. O pai se opôs-se energicamente a que ela estudasse Ciências. Preferia que ela fosse professora. Porém, a mulher que viria revolucionar o ensino no mundo recusou terminantemente, dizia que poderia ser tudo menos professora. Este seria o primeiro de muitos conflitos, que Alessandro teria com a filha. Dado o bom aproveitamento escolar, Maria, com 20 anos, assegurou um lugar na Universidade de Roma, para estudar Medicina, um feito notável para uma mulher na Itália. A universidade era reduto dos homens, e, sobretudo em Medicina. Maria viria a descobrir que ia entrar num ambiente hostil. Como mulher, Maria tinha que ser escoltada, por seu pai para as aulas. Apesar de ser contra, ele fazia-o, pois, era indecoroso que uma mulher andasse sozinha na rua. Ela só podia entrar numa sala de aula, quando todos os alunos do sexo masculino estivessem sentados. E estes mostravam abertamente o seu desprezo, por esta mulher impertinente. Para os estudantes do sexo masculino, estava fora de questão que esta mulher, estivesse ao lado deles nas aulas de dissecação, onde eram exibidos corpos nus, e por assim ser, Maria estudava a noite sozinha, onde pensou em desistir…

“Sinto uma grande pressão sobre mim. Esse lugar é tão estranho. Parece que tudo que eu adoro está fora desta sala.” (Maria Montessori)

Porém, ao regressar para sua casa, ia determinada a abandonar os estudos. E, ao passar pelos vários pedintes de Roma, teve um momento profético. Viu uma criança sentada, a brincar com um pedaço de papel vermelho. A criança estava descalça e esfomeada, mas, totalmente concentrada no pedaço de papel. Algo neste simples ato deixou uma marca profunda em Maria. Seria a capacidade de concentração da criança, apesar de seu infortúnio ou teria ela visto na criança, um potencial reprimido para aprender? A própria Maria não sabia o que a inspirara tanto nessa cena. Mas, sentiu que…

 “Nós, os seres humanos, devemos ter uma missão da qual não temos consciência.” (Maria Montessori)

Maria regressou aos estudos com vigor. E, em 1896, Maria Montessori, tornou-se a primeira licenciada em Medicina, da sua universidade, e uma das primeiras Médicas da Itália. O pai via agora, a mulher extraordinária que a filha se tornara.

E, Maria, não parou, depois de se formar usou sua coragem e força para defender os direitos das mulheres. Maria era agora docente na Universidade de Roma e chegou a discursar em um congresso em Berlim, onde seu discurso defendeu a causa das mulheres trabalhadoras.

“Irei empenhar-me com todas as minhas forças, para garantir o princípio de salário igual para trabalho igual, para que salários de trabalhadores de sexo feminino e masculino fiquem ao mesmo nível.” (Maria Montessori)

Quando regressou a Roma, não tardou a descobrir onde realizaria o seu trabalho como médica. Maria começou a trabalhar na clínica psiquiátrica da Universidade de Roma. Parte do trabalho de Maria era visitar os “hospícios”. Lá, encontrou crianças com dificuldades graves de aprendizagem, que eram referidas como “crianças idiotas”, as crianças dos “hospícios” de Roma estavam condenadas ao sofrimento. Maria ficou horrorizada com o tratamento que eram dados aquelas crianças, e fez algo por elas.

“É necessário que essas crianças, reintegrem a sociedade humana, que assumam seu lugar no mundo civilizado e sejam independentes de outros, tendo a dignidade humana ao seu alcance.” (Maria Montessori)

Maria acreditava que aquelas crianças tinham um potencial latente. Aceitou o cargo de codiretora de uma nova escola, criada especialmente para o ensino de crianças com deficiências mentais. Outro codiretor era o jovem Giuseppe Montesano, juntos queriam mudar a vida das crianças nos hospícios. Depois de muito estudar, observar e interagir com as crianças, seu trabalho começou a dar fruto, e as crianças começaram a ter um grande progresso. E ela de forma audaz, foi inscrever algumas dessas crianças para os exames nacionais italianos, sem dizer que eram crianças do “hospício”. E contra todas as expectativas, algumas das crianças passaram nos exames, com notas mais altas do que a média nacional. A sociedade italiana elogiou os doutores Montessori e Montesano, que conseguiram educar aqueles que seriam ineducáveis.

Porém, Maria não ficou maravilhada com as próprias conquistas. Pelo contrário, ficou chocada com os resultados das crianças sem necessidades especiais. Montessori ficou horrorizada ao pensar que crianças que possuíam todas as faculdades mentais, não podiam sair-se tão bem como aqueles que não tinham. Então, 1901, mesmo ano que Montesano se casa com outra mulher, com 30 anos, Maria tomou a difícil decisão de abandonar a escola e voltar sua atenção para o ensino de todas as crianças italianas.

Poucos sabiam, porém… Mais que parceiros de trabalho Montessori e Montesano se apaixonaram, mas, Maria não queria abandonar seus estudos e trabalho, por isso, não se casou com Montesano. Entretanto, aos 26 anos fica grávida e por ironia do destino e sobre a pressão de uma sociedade machista e preconceituosa da época, esta mulher que tanto amava e respeitava as crianças, era uma figura distante na vida do próprio filho, que foi criado no campo por uma família de agricultores. No entanto, o pequeno Mário Montessori, recebe as visitas da mãe como se ela fosse sua tia, e aos 12 anos Mário revela que sabe que Maria é sua mãe, e essa decide o assumir diante da sociedade, e os dois não se separam mais.

Montessori, dedicou-se ao trabalho com uma energia voraz. Com 30 anos, só não continuou a exercer a Medicina e a dar aulas na Universidade de Roma, pois se inscreveu no curso de Antropologia e Psicologia. Também continuou a estudar o desenvolvimento infantil, determinada a libertar as crianças das injustiças sociais, com uma abordagem totalmente radical de ensino.

“Se não existem casas próprias para se trabalhar o desenvolvimento das crianças, vamos construí-las. Se as crianças não possuem objetos próprios ao seu tamanho, vamos fabricá-los”. (Maria Montessori)


A Casa dei Bambini e o Método Montessori

Em 1906, surgiu uma oportunidade de Maria, colocar a prova suas pesquisas e estudos no campo da educação. Em uma zona carente de San Lorenzo, em Roma, estava em curso um projeto social para reabilitar a habitação dos pobres. Mas, as crianças que ainda não tinham idade para irem à escola, estavam a estragar os edifícios renovados. Maria liderou um projeto para supervisionar as crianças e o chamou de “Casa dei Bambini”, Casa das Crianças. Ali aplicou as teorias que tinha iniciado com as crianças dos “hospícios” e que desenvolveu com estudos posteriores.

 Maria Montessori observou que as crianças possuem um forma de aprender, elas procuram o conhecimento espontaneamente, explorando e criando. Ela acreditava que se as crianças tivessem a oportunidade, prefeririam se concentrar no trabalho a ficar na inércia. Montessori descobriu há muitos anos, o que os pesquisadores atuais confirmam: as crianças aprendem melhor com as próprias atividades, aprendem melhor quando estão ativas e a explorar.

 “As experiências do ser frente ao meio levam ao conhecimento. E tais experiências não só proporcionam o crescimento da mente, como também sua saúde.” (Maria Montessori)

O que Montessori fez foi uma experiência científica, que foi observada e colocada em prática no projeto de San Lorenzo, e tornou-se a base do Método Montessori. Ela criou um novo ambiente, totalmente diferente das escolas tradicionais italianas.  As crianças realizam as atividades com alegria. Uma criança de 4 anos ficou tão absorvida pela tarefa que estava realizando, que mesmo quando Maria disse para as outras crianças dançarem e fazerem o máximo de barulho possível, a menina não desviou sua atenção. Maria observou também que as crianças tinham um amor inato pela ordem, o que gera nas crianças a sensação de cuidadoras, cuidadoras de um espaço, de uma comunidade. Ela ensinou-lhes simples atos de higiene pessoal, como assoar o nariz. Montessori entendeu que as crianças tem um sentido de dignidade pessoal que não costumam ser reconhecidos pelos adultos. Não existia recompensa ou castigos em suas escolas, as atividades que realizavam eram recompensa suficiente. Entretanto, a mais notável de suas observações foi quando as crianças sem receberem as instruções dela, aprenderam a ler sozinhas. Ela mostrou letras em lixa com um fundo de madeira como ferramenta multisensorial, e assim, as crianças podiam sentir o movimento das letras com os dedos, sentindo a forma e o som da letra, e com essas instruções aconteceu a “explosão da escrita e leitura”.

“A criança é possuidora de um grande poder que lhe permite distinguir as palavras, absorvê-las em sua mente e usá-las para expressar suas ideias, e também para entender as outras pessoas.” (Maria Montessori)

A “Casa dei Bambini”, foi um enorme sucesso. Legisladores, professores, médicos e pais iam até lá para verem o milagre. Em 1909, Maria Montessori publica o livro “Método Montessori” e abre um centro de formação para professores sobre o seu método de ensino. Esse foi o inicio de uma revolução no ensino que atingiu todo o mundo. Aos 42 anos, sempre junto com o seu filho Mário Montessori, Maria dedicou-se a divulgação do seu Método, e em 1942 o seu livro “Método Montessori” foi traduzido para o inglês. Maria tornou-se um fenômeno mundial, que a levou a viajar pela Europa, e dar palestras e passar sua mensagem de respeito com as crianças.

“Não é verdade que eu inventei o Método Montessori. Eu apenas estudei a criança, aproveitei tudo o que ela me ensinou, e expressei estes conhecimentos. Isto é o que chamam de Método  Montessori.” (Maria Montessori)

Uma Educação para a Paz

Entretanto, Maria Montessori, passa pelos dois momentos mais tristes do mundo, as duas grandes guerras, apesar desse triste fato da história, nada interrompeu a divulgação do Método Montessori por todo o mundo.

 “Agora, chegou a hora de trabalharmos. Vamos trabalhar pela paz e pela humanidade, no meio das mais desumanas das guerras. Os nossos olhos devem estar voltados para as crianças, pois, só no futuro reside a esperança do mundo.” (Maria Montessori)

Porém, Montessori foi obrigada a abandonar seu país de origem e buscar um refúgio onde entendessem sua filosofia, encontrou na Índia esse lugar, onde divulgou e realizou o seu trabalho.

Maria Montessori teve seu trabalho reconhecido por grandes nomes da época, como por exemplo Freud… “Como qualquer pessoa que estude a psique da criança, estou solidário com os seus esforços, que demonstram um amor e um encantamento pelo Ser Humano”.

Na Índia, Gandhi viu em Maria Montessori e no seu Método a oportunidade de educar milhões de crianças indianas que estavam na pobreza. Em, um discurso no Centro de Formação Montessori em Londres, Gandhi disse: “As maiores lições na vida, se nos dispuséssemos a debruçar-nos e sermos humildes, iriamos aprendê-las não com os adultos eruditos, mas com as chamadas crianças ignorantes”.

Em 1946, Maria e Mário Montessori, regressam finalmente a uma Europa destruída pela guerra. Ela estava convencida, que a paz do mundo só poderia ser alcançada através da instrução das crianças. E aos 75 anos lançou-se na tarefa de restabelecer as escolas Montessori na Europa.

Uma vez mais percorreu os continentes a discursar para uma multidão que a ouvia agradecida e as escolas Montessori reapareceram. Atualmente, há mais de 8 mil escolas oficiais Montessori na Europa, e mais de 14 mil escolas espalhadas em 6 continentes, onde o Método Montessori é praticado. Maria Montessori, provocou uma revolução que, desde a sua origem, teve um grande impacto na forma como as crianças eram ensinadas, mesmo quando não haviam professores Montessori presentes. Seu Método de ensino foi tão revolucionário que conseguiu atingir o ser o humano desde o seu nascimento até a Universidade, e suas escolas comprovam isso, através de seus alunos que se beneficiaram do método revolucionário de ensino, como por exemplo, Larry Page e Sergy Bin, fundadores do Google, duas pessoas bem sucedidas, criativas e inovadoras, que propagam em sua empresa, no espirito Montessori que “o trabalho deve ser desafiante e o desafio deve ser divertido”.

  “Quando entendermos a realidade misteriosa da criança, descobriremos que liberdade é o poder de PESQUISAR, DESCOBRIR, AGIR E SERVIR.” (Maria Montessori)

Nos últimos anos de sua vida a casa de Maria em Amsterdã, tornou-se ponto central de um movimento mundial para o Método Montessori. As suas conquistas foram elogiadas por todo o mundo. Muitos líderes mundiais a viram como uma gigante intelectual, cujas as teorias eram dignas de reconhecimento. Maria, foi condecorada com a Legião de Honra na França, com a Orange-Nassau na Holanda e foi nomeada três vezes para o prêmio Nobel da Paz. Continuou a promover a paz mundial e, 1949, dirigiu-se aos representantes das Nações Unidas dizendo…

“Quando as crianças estão habituadas, desde a mais tenra idade, a ter em conta àqueles que a rodeiam como fonte de ajuda para explorar o mundo, não se sentem tentadas a adotar uma atitude desconfiada ou hostil em relação àqueles que pertencem a outras raças ou religiões”. (Maria Montessori)

Maria Montessori morreu com 81 anos, no dia 06 de maio, em 1952, na Holanda onde foi sepultada. O nome de Maria Montessori ainda é conhecido em todo mundo, mas isso pouco significava para ela. O mais importante para ela era o seu trabalho. Tal como ela própria disse… “Não olhem para mim, olhem para o caminho que indico.”

Maria Montessori, passou a sua vida em busca da verdade. Ao estudar as crianças, analisou a natureza humana e sua origem, tanto a Oriente como a Ocidente, e embora tenham se passado mais de 100 anos que iniciou o seu trabalho, as crianças ainda são uma fonte inesgotável de esperança. As crianças mostram que toda a Humanidade é um todo e cada ser humano tem uma importante missão a cumprir… Por isso, descubra qual é a sua missão e a viva por você e em benefício da construção de uma sociedade melhor.

“Peço às queridas crianças, que tudo podem, para unirem se a mim para a construção da paz nos homens e no mundo.” (Maria Montessori)

por Sara Silva

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